A ideia de fazermos esta grande viagem até à Noruega surgiu pela primeira vez durante um , em Janeiro último, na companhia dos meus habituais "colegas de aventura", o meu cunhado Manuel Carreiro, o meu bom amigo Carlos Paz Ferreira e as respectivas esposas.
Depois de uma , a nossa nova aventura iniciou-se, efectivamente, com o em 11 de Junho passado, no Transitário Insulartráfego. As 3 motas - a minha Yamaha FJR 1300 e as outras duas Hondas ST1300 - foram devidamente acondicionadas num contentor de 40 pés que chegou a Lisboa no dia 16 de Junho.
No dia 17 embarcamos todos para Lisboa a bordo da e, no dia seguinte, apressamo-nos a ir levantar as motas ao transitário “Rosa de Prata” em Chelas (Lisboa). Ao contrário do ano passado, desta vez as motos chegaram intactas graças aos berços especiais que utilizamos para as transportar dentro do contentor.
Já de mota, fomos almoçar neste dia a Monsanto com alguns amigos da lista FJR1300PT e do Motoclube de Lisboa para ultimar os detalhes do "", que se realizou um dia após o meu regresso a Lisboa, mais precisamente durante o fim de semana de 12 e 13 de Julho. Neste mesmo dia aproveitei ainda para adquirir um novo equipamento para mim e para Elisa e afinar o comando duplo do alarme da minha moto na .
1º dia – 19 de Junho de 2003 
Depois de reunir, na noite anterior, toda a família residente em Lisboa para a habitual mariscada de despedida na "Cervejaria Ramiro", escusado será dizer que não foi necessário esperar pelo despertador para acordar muito antes das 06:30. Como sempre acontece, a excitação era tanta que mal dormimos. Às 07:00 encontramo-nos com o casal Paz Ferreira e, conforme o planeado, encontramo-nos às 07:30 com o Manuel Carreiro e a minha irmã Annie na Área de Serviço de Aveiras, o ponto de encontro e partida de mais esta aventura.
O dia estava radioso e, depois de um rápido pequeno almoço, dávamos início à grande viagem. Atravessamos a fronteira com Espanha em Vilar Formoso pelas 11:35 e fizemos a primeira paragem para almoço na bonita cidade de Salamanca, onde chegamos pelas 13:45 (hora local). O tempo estava muito quente, mas mal sabíamos que havíamos escapado por pouco à grande onda de calor que assolou a Península Ibérica nos dias que se seguiram. Depois do almoço rumamos a Biarritz, já em França, onde chegamos às 20:45 depois de percorrer 1.132 kms. Nada mau para o primeiro dia !
2º dia – 20 de Junho 
Porque nos esperava um dia ainda mais longo até à Bélgica, às 08:00 da manhã já estávamos na estrada em direcção a Paris. Neste dia almoçamos pelas 13:00 perto de Tours a que se seguiu a sempre difícil travessia de Paris, sob um calor intenso. Mesmo assim e graças ao respeito que os condutores franceses têm para com os motociclistas, conseguimos livrar-nos do intenso tráfego das circulares da cidade em apenas 1 hora, sem qualquer erro de percurso. Após esta penosa travessia paramos para reabastecer e retemperar energias num posto de abastecimento nos arredores da cidade, altura em que o alarme da minha mota, porventura devido ao excesso de calor, descontrolou-se e não parava de apitar. Tanto assim que alguns "gendarmes" que se encontravam na área de serviço onde havíamos estacionado ainda me lançaram um olhar desconfiado, até que se aperceberam do que se estava a passar, rindo-se da minha atrapalhação a ligar e desligar o cabo de alimentação do alarme até conseguir fazer o respectivo "reset". Durante os 10.859 kms da viagem, a minha Yamaha FJR 1300 só teve este pequeno percalço técnico e um outro problema com o "joystick" do rádio, já em Ibiza. Os novos pneus Bridgestone BT-020 que montei para esta viagem comportaram-se também muito bem, para o grande número de quilómetros percorridos.
De seguida rumamos em direcção a Lille e depois a Dunkerque, atravessando finalmente a fronteira entre a França e a Bélgica às 19:35. Neste dia percorremos 1.118 kms.
Pelas 20:00 horas chegamos ao charmoso , situado junto às extensas praias da costa Belga onde, curiosamente, se pesca ainda camarão a cavalo, uma prática única no Mundo. Fomos acolhidos calorosamente pela Vera e pelo Francis, os donos do hotel, ambos possuidores de Yamaha’s FJR 1300/A, e outros dois amigos motards belgas, o Luc e o Ronnie. Depois do check-in e de um revigorante duche, fomos obsequiados com um extraordinário jantar que incluiu 12 pratos típicos da cozinha Belga, extremamente bem apresentados e confeccionados, regado com um excelente vinho branco. À meia noite e porque o meu cunhado Manuel Carreiro fazia anos, a Vera e o Francis preparam um , muito bem decorado com uma auto-estrada em chocolate, três motos e sinais "Lisboa", "Boothotel La Peniche" e "Norway", representativos da nossa viagem. A festa acabou tarde e num ambiente de muita alegria, tanto assim que já trocávamos o nome do pequeno cão de estimação "" do hotel de "Gérard" para "Richard" ... Foi um grande momento de confraternização "motard" e, sem dúvida, um dos mais agradáveis de toda a nossa viagem.
3º dia – 21 de Junho 
Depois do delicioso e bem regado repasto da noite anterior, pela primeira vez nesta viagem, não conseguimos cumprir o nosso programa, saindo do Boothotel La Peniche pelas 09:30 em direcção à fronteira da Holanda onde nos esperava outro grupo de motards, membros do . Chegamos à fronteira pelas 11:45 e, depois de uma agradável confraternização de cerca de uma hora com os nossos simpáticos amigos Holandeses , retomamos a estrada em direcção à Dinamarca, passando primeiro pela Alemanha.
Devido ao atraso na saída da Bélgica e, mais tarde, a um pequeno engano de itinerário na Holanda, infelizmente falhamos o encontro para almoço que havia marcado com o Heiko e outros amigos Alemães, do , que nos esperavam em Bremen. Tive de facto muita pena deste desencontro. Neste dia almoçamos num restaurante de estrada à saída de Essen, já na Alemanha, rumando à tarde para Bremen, Hamburgo e finalmente Hirtshals, no Norte da Dinamarca, de onde embarcamos para a Noruega. O último troço deste dia na Dinamarca foi penoso, não só pelo reduzido limite de velocidade e rigorosa fiscalização imposta nas estradas Dinamarquesas, mas também pela monotonia do trajecto, muito plano e quase sempre em linha recta, com o frio a aumentar rapidamente à maneira que nos aproximávamos de Hirtshals, situado no extremo Norte do País.
Depois de percorridos 1.275 kms chegamos finalmente a Hirtshals cerca das 23:00 horas. Como havia dois portos para os ferries, demoramos ainda cerca de 30 minutos à procura do porto de embarque correcto, debaixo de um vento frio que quase nos enregelava. Só chegamos ao ferry "Boavista" da meia hora antes da partida. Porque esta companhia dedica-se quase exclusivamente ao transporte de camiões TIR, os camionistas têm preferência na reserva dos camarotes. Só por especial favor conseguimos reservar 3 camarotes para podermos dormir antes de chegar à Noruega, por forma a recuperarmos convenientemente dos 3.525 kms percorridos nos 3 dias anteriores. Devido ao forte vento que se fazia sentir, apanhamos mar muito forte à saída da Dinamarca, que fazia o barco baloiçar e ranger vigorosamente. Mas como o cansaço era mais que muito, depois de um rápido jantar a bordo e de um duche tomado já em equilíbrio muito instável, dormimos profundamente até à nossa tão esperada chegada a Langesund, na Noruega, às 08:00 da manhã seguinte.
4º dia – 22 de Junho 
Ao aproximarmo-nos lentamente de terra, a bordo do "Boavista", apercebemo-nos de imediato o quão bonita é a natureza Norueguesa. Ao chegarmos a Langesund ficamos logo encantados com a beleza e a calma daquela pitoresca cidade do litoral, com as suas pequenas casas de madeiras pintadas das mais diversas cores e todas muito bem arranjadas. Depois de desembarcarmos as motos, foi com muita alegria que deparamos com uma simpatiquíssima "comissão de boas vindas", o Ommund, também proprietário de uma FJR 1300, e o casal Blom - a - proprietários de uma Honda Goldwing que, juntamente com o meu amigo Henning Sunde, muito nos ajudaram na preparação do roteiro e indicação de hotéis na Noruega. Depois das apresentações e "troca de galhardetes" (levamos connosco uns autocolantes dos Açores e da nossa viagem que fomos distribuindo ao longo do percurso), paramos numa bomba de gasolina para reabastecer. Aí apercebemo-nos logo do elevado custo de vida na Noruega ao pagar 1,5 euros por litro de gasolina.
Guiados pelo nosso amigo Omund, seguimos de Langesund até o maciço central da Noruega em direcção a norte, parando para almoçar num bonito restaurante com vista para um lago gelado, perto de Haukeligrend.
Foi nesta altura que o Manuel Carreiro deixou cair a mota no chão. O motor foi-se abaixo e ele não conseguiu evitar o tombo. A ST1300 felizmente não sofreu qualquer dano, mas ele ficou com o ego profundamente ferido...
Só tínhamos percorrido cerca de 200 kms por terras dos Vikings, mas já estávamos completamente rendidos à beleza da paisagem Norueguesa. Uma sucessão de lagos, montanhas, riachos e cascatas de uma beleza indescritível. Depois do almoço e sempre guiados pelo Ommund, visitamos a imponente cascata de Laatefoss, perto de Odda, e continuamos a nossa caminhada em direcção a Norte, para Ulvik, onde os Pais do Ommund têm uma casa de Verão extremamente bem localizada, no cimo de uma montanha, com uma vista soberba sobre um dos muitos majestosos fiordes da Noruega.
Foi justamente a caminho de Ulvik que aconteceu o único incidente desta viagem, que podia ter tido consequências bastante graves. Eu seguia à frente com o Ommund e, a umas dezenas de metros atrás, vinham o Manuel, o Carlos e o Hakon quando, ao atravessarmos um túnel, cruzamo-nos com um camião TIR. Como o túnel era a descer, o camião, que seguia em sentido contrário, vinha em esforço. Foi então que, mesmo à minha frente e do Ommund, o turbo compressor do motor do TIR explodiu, envolvendo-nos a todos numa enorme e espessa nuvem de fumo branco, que nos deixou completamente às cegas. Porque eu e o Ommund vínhamos mais adiante e já havíamos visto a saída do túnel, embora ofuscados, conseguimos atravessar a densa nuvem de fumo e sair do túnel. O mesmo não aconteceu aos restantes, que ficaram presos no meio do irrespirável fumo durante vários minutos sem saberem para onde ir. Tanto assim que o Carlos ultrapassou o Manuel pela direita sem ao menos se aperceber disto e, felizmente, sem o tocar. Valeu o sangue frio da Teresa e das restantes mulheres que saltaram de imediato das motos e conduziram os maridos, a pé, seguindo a linha branca do piso do túnel que, embora com grande dificuldade, conseguiam ainda ver. Já no exterior e ao dar pela falta dos restantes, temendo o pior, eu e a Elisa reentramos no túnel para os socorrer, convencidos que os iríamos encontrar acidentados, uns em cima dos outros. A nossa angústia foi aumentando à medida que entrávamos no túnel, repleto de fumo, e só nos deparávamos com outras viaturas que seguiam em sentido contrário a fazerem marcha atrás para fugirem àquele inferno. Até que, para nosso grande alívio, vislumbramos finalmente os faróis da ST 1300 do Carlos, logo seguido do Manuel e do Hakon, guiados a pé pelas respectivas mulheres. Fugimos rapidamente do túnel e estacionamos à saída. Estávamos ainda todos em pânico e confusos, sem saber bem como nos havíamos livrado daquele pesadelo. Valeu-nos os simpáticos ocupantes de uma caravana, que ao verem o nosso estado, nos ofereceram leite para desintoxicar. O Ommund, que se manteve prudentemente fora do túnel, já chamara a polícia e os bombeiros, que chegaram passados 15 minutos, estava ainda o túnel a fumegar.
Refeitos do grande susto retomamos o nosso caminho em direcção a Ulvik e, em Brimnes, atravessamos o primeiro fiorde num ferry até Nesheim. A travessia foi rápida pois toda a operação de embarque e desembarque decorreu com grande disciplina e organização. Chegados a Ulvik subimos uma sinuosa estrada de montanha até à pitoresca , com uma vista soberba sobre o fiorde. Visitamos a bonita e bem arranjada casa, que inclui um pequeno museu pessoal de equipamentos agrícolas muito antigos, que a Mãe do Ommund mantém na casa de arrumos. Para além de tirar muitas fotografias, aproveitamos para descansar um pouco frente àquela paisagem paradisíaca. O local é tão bonito que alguns de nós se propuseram ficar lá o resto das férias ...
Retomamos a sinuosa estrada de montanha até à via principal que nos levaria à conhecida estância turística de Flam, onde chegamos às 20:15 depois de percorridos os primeiros 463 kms na Noruega. Infelizmente e por uns escassos 30 minutos, não conseguimos apanhar o último comboio , que faz um tour panorâmico de uma hora e meia pelas montanhas que circundam .
Depois de um excelente jantar no e uma noite bem dormida no tranquilo hotel , situado nas bermas do fiorde, estávamos prontos para prosseguir o nosso fantástico passeio pela Noruega.
5º dia – 23 de Junho 
Saímos de Flam pelas 9:00 horas, já sem a simpática companhia do Ommund, que regressou a casa naquele dia, conforme o inicialmente previsto. Por sua vez os nossos amigos Julia e Hakon necessitavam visitar um parque de campismo da , onde a Julia trabalha, pelo que neste dia tomaram um caminho diferente, só nos reencontrando depois do almoço.
À saída de Flam atravessamos o moderno , o maior túnel rodoviário do Mundo com 24,5 kms de extensão. Por estarmos ainda mal recuperados do susto do dia anterior, infelizmente não conseguimos apreciar devidamente toda a grandiosidade desta magnifica obra da engenharia Norueguesa, com as suas grandes galerias centrais abobadadas e artisticamente iluminadas. À saída do túnel apanhamos mais um ferry para atravessar um fiorde até Songdal e, no horário previsto, estávamos a chegar ao imponente glaciar de Brigsdal, onde almoçamos.
Depois do almoço tomamos a direcção do famoso fiorde de Geiranger, ponto obrigatório de passagem de muitos navios de cruzeiro, sem antes passar por mais um glaciar a subir para uma zona montanhosa coberta de neve em que a temperatura era de apenas 6º C. Na estrada que desce para o fiorde de Geiranger decidi esquecer por momentos o rigoroso limite de velocidade de apenas 90 km/h que prevalece na maioria das estradas Norueguesas, para dar o “gosto ao punho”, aproveitando para fazer uma curvas fabulosas num alcatrão de excelente qualidade. Escusado será dizer que tive de esperar algum tempo até que os meus cuidadosos e respeitadores colegas chegassem ao miradouro de Geiranger, aproveitando para me deliciar com a fantástica vista sobre o fiorde.
Já no centro de Geiranger reencontramo-nos com os nossos amigos Julia e Hakon e prosseguimos a nossa viagem com destino ao ponto mais a Norte da nossa viagem - a cidade de Kristiansund, que escolhi simbolicamente por ter sido desta cidade que o meu Avô Nicolau Sousa Lima importou muitas toneladas de bacalhau para vender na sua pequena mercearia, o embrião do nosso actual grupo empresarial.
A caminho de Molde visitamos ainda a majestosa escarpa de , a mais alta escarpa de pedra da Europa com 1.814 metros de altitude a partir do vale em que nos encontrávamos.
Depois apanharmos mais um ferry até Molde e, de seguida, atravessamos a "" até ao local de embarque do último ferry para Kristiansund, às 23:30. A “Estrada do Atlântico” é extremamente bonita pois é composta por uma série de pontes que interligam vários ilhéus do Mar do Norte, daí o seu nome. Neste dia percorremos 574 kms.
Chegados a Kristiansund, fizemos uma refeição rápida num pub e recolhemos ao hotel cerca da 1 hora da madrugada, era ainda lusco-fusco. Aliás estávamos na Noruega justamente na época do sol da meia-noite, que acontece um pouco mais a Norte. O sol, que se havia posto às 23:35, voltou a nascer em Kristiansund eram 03:10 da madrugada, o que me fez acordar devido às cortinas pouco espessas da estalagem , onde pernoitamos. É uma sensação no mínimo estranha pois perdemos completamente a noção do tempo solar.
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